Uma organização sem fins lucrativos da Índia decidiu apelar à internet – e à sinceridade dos cidadãos – para combater a corrupção endêmica no país.
O site "I paid a bribe" (eu paguei propina) foi criado em 2010 e oferece um espaço para os cidadãos indianos relatarem os momentos em que tiveram que pagar a mais para conseguir algum serviço público.
A ideia é dar um relato detalhado, com valor exato, o tipo de serviço, a localização e a frequência. O resultado é uma espécie de mapa da corrupção, no qual os interessados podem buscar por cidade, departamento ou tipo de transação.
"Nós vamos usá-los para tentar melhorar os sistemas de governança e procedimentos, reforçar a aplicação da lei e reduzir o espaço para corrupção na obtenção de serviços do governo", diz o site, criado pelo Centro pela Cidadania e Democracia Janaagraha, sediado em Bangalore e que visa a incentivar a participação dos indianos na governança pública.
O relato da propina pode ser de qualquer época e não é necessário colocar nome. Até o momento da publicação desta reportagem, foram 12.329 histórias em 430 cidades e 21 departamentos.
O site faz ainda as contas da corrupção, que causou aos bolsos indianos um prejuízo de 312.271.021 rupias indianas (cerca de R$ 10,9 milhões). A ideia é conscientizar a população indiana da extensão dos danos de uma prática socialmente aceita.
"Uma pessoa que vivencia corrupção em pequena escala tem seu espírito corrompido", disse um dos fundadores do site T R Raghunandan, ao jornal "Washington Post". "Quando seu espírito está corrompido, você tende a aceitar outras formas de má governança também."
Para os aflitos, o site oferece os conselhos do Sr. Raghu sobre como agir caso uma propina seja cobrada.
O "I paid a bribe" permite ainda relatos de pessoas que não tiveram de pagar propina ou que simplesmente se recusaram, uma forma de destacar também os políticos e funcionários públicos honestos do país. Estes relatos, contudo, são menos numerosos – somam 1813, ou 14% do total.
PROTESTOS
Há cerca de três semanas, a oposição paralisa o Parlamento indiano, parte de uma onda de protestos populares contra as suspeitas de fraude do governo na licitação de serviços de telefonia móvel e na organização dos Jogos da Comunidade Britânica de 2010. As fraudes teriam custado mais de R$ 60 bilhões ao país.
As manifestações ganharam força na terça-feira (16)p.p, com a prisão do ativista indiano Anna Hazare. Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas em diversas cidades em apoio ao ativista, que, após acordo com a polícia, iniciou uma greve de fome de 15 dias para tentar forçar o governo a melhorar sua lei anticorrupção.
O governo do premiê Manmohan Singh defende a reação das forças de segurança, que detiveram centenas de manifestantes, e nega que esteja tentando sufocar protestos democráticos. Ele afirma ainda que a greve de fome de Hazare é "totalmente mal concebida".

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