BRASÍLIA – A Guerrilha do Araguaia, ocorrida na região conhecida por Bico
do Papagaio, na região Sul e Sudeste do Estado do Pará, no período de 1967 a
1975, acaba de ganhar a sua história social. A memória do acontecimento está
na pesquisa Memórias do Araguaia: relatos de uma guerrilha, produzida por
Adriana Coimbra, graduanda em História da Universidade Federal do Pará
(UFPA) e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação
Científica (PIBIC/CNPq).
Para realizar sua pesquisa, Adriana Coimbra utilizou as gravações em vídeo
feitas pelo Grupo de Trabalho do Tocantins (GTT), responsável pela
construção do acervo da memória social da Guerrilha do Araguaia. O grupo
integra o projeto de identificação dos restos mortais dos guerrilheiros.
Adriana foi orientada sem eu trabalho por Rodrigo Peixoto, pesquisador do
Museu Paraense Emílio Goeldi.
A intenção da bolsista é colocar o resultado do trabalho no site
www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br. Para isso o Museu Goeldi fará
uma convênio com o Arquivo Nacional, órgão vinculado à Casa Civil da
Presidência da República. “Queremos deixar à disposição dos pesquisadores,
que tiverem interesse em pesquisar essa temática da Guerrilha”, ressalta
Adriana Coimbra. A bolsista já ouviu cerca de 80 horas de entrevistas, onde
procura deixar na íntegra todo o material coletado. “A gente edita no
sentido de que a câmera fica muito tempo ligada antes de começar a
entrevista. Ou, às vezes, o entrevistado está falando e, de repente, alguma
coisa o distrai e ele começa a dar atenção para aquela outra coisa... A
gente retira aquilo que não interessa para o arquivo”.
Segundo Adriana, as entrevistas lembram como os guerrilheiros do Araguaia se
instalaram naquela região. “Eles acreditavam existirem ali os elementos
necessários para o desenvolvimento da guerra de guerrilhas, tais como:
terras em processo recente de ocupação, conflitos sociais pela posse da
terra, ausência do Estado, além de ser uma área de difícil acesso por causa
da floresta densa”. Por isso, as florestas da Amazônia eram consideradas o
lugar ideal para refúgio e preparação dos guerrilheiros.
Cotidiano na região do Araguaia
A chegada dos guerrilheiros mexeu profundamente com a rotina do lugar. “No
início chegaram silenciosos. A intenção era se misturar e ganhar a confiança
da população, já que estavam em uma região com muitas dificuldades e vinham
de outra realidade – muitos deles eram universitários ou pessoas já
formadas, como médicos, geógrafos, economistas, enfermeiros – então eles
tinham uma preparação acadêmica e técnica diferente das pessoas dali”, conta
Adriana Coimbra.
Com isso, acabaram adotando uma outra tática: a tática de ajudar as pessoas.
“Eu não sei te dizer se eles adotaram essa tática conscientes ou se eles
foram tocados pelo sentimento de humanidade. O que se sabe é que eles
acabaram se tornando, para aquelas pessoas, a única alternativa”.
A imagem de um grupo perigoso à soberania nacional e inimigos da pátria
ficou bem distante após a bolsista ouvir as primeiras gravações feitas pelo
GTT. Em entrevista concedida ao grupo, dona Neusa relata como se envolveu
com Amaro Lins, um guerrilheiro atuante no ano de 1969. Amaro se afastou do
Partido Comunista do Brasil (PC do B) para ficar com dona Neusa. Tiveram
quatro filhos. Em 1972, Amaro foi preso pelo Exército para prestar
esclarecimentos sobre seu envolvimento com a guerrilha.
Dona Neusa conta também que abordada por Paulo – não se sabe ao certo se o
nome é do registro civil ou codinome político – leu os 27 pontos do PC do B,
o que a teria feito entrar para o Partido, por acreditar ser uma causa
justa.
A entrevistada conta ainda: “O Paulo chegou como médico. Eram aqueles deuses
que desceram do céu para socorrer as pessoas da região. A minha casa era
grande, as pessoas ficavam na minha casa, virou um hospital. Eles não
cobravam pela consulta. Quem podia pagava os remédios, quem não podia não
pagava. Mas camponês é honesto e fazia questão de pagar com serviço”, diz
dona Neusa em entrevista gravada pelo GTT.
Emoção nas entrevistas
Ainda nas gravações, Adriana Coimbra sentiu nas falas dos entrevistados a
emoção, o sentimento de importância dos guerrilheiros para a região e até o
medo.
Dorimar, um dos soldados atuantes na guerrilha ao lado do exército,
atualmente preside uma associação que reivindica indenização para os
soldados envolvidos no conflito. “Na fala de Dorimar encontramos o desejo
dele de esclarecer que não tinha consciência de seus atos, não sabia que
estava cometendo crimes contra o ser humano. Posiciona-se claramente a favor
de sua classe, os soldados, representando-os como o lado mais fraco naquela
situação de luta do exército contra os guerrilheiros: 'Os soldados eram
ameaçados’. Diziam: 'Se você não fizer isso, vai enfrentar uma corte
marcial... Pode ser até executado'.”
“O discurso que ele constrói é no sentido de dizer que ele foi enganado, que
ele não sabia o mal que ele tava fazendo para as pessoas”, destaca a
bolsista. “A gente não se sente só traumatizado, mas se sente vítima...
Porque a gente nem sabia o que estava acontecendo. Eles [os militares do
alto escalão] diziam que eram guerrilheiros financiados por Cuba, pela
China, de outros países, treinados por outros países, para vir tomar o
Brasil. Era essa a informação que nós tínhamos dos comandantes generais.
Então, a gente ia fazer aquilo com orgulho, pensando que tava defendendo o
Brasil de uma invasão estrangeira. A gente ia pro tudo ou nada. Eles diziam:
‘se eles tomarem o país, a tua família vai ser sacrificada’. Aquilo era uma
maneira deles levantarem o brio do soldado, a moral do soldado” disse
Dorimar em entrevista gravada pelo Grupo de Trabalho.
Importância do acervo
Adriana Coimbra, em seu processo de análise do material coletado, ressalta
que diversas são as visões criadas acerca da Guerrilha do Araguaia e de seus
participantes, tanto do lado do Estado quanto da sociedade civil. Além
disso, a guerrilha ainda está muito presente na memória e no cotidiano da
população local, mesmo passados 35 anos da dizimação do projeto guerrilheiro
implantado pelo PC do B. “Os que viveram os horrores daqueles dias de
incerteza e de restrição das liberdades, capitaneados pela dureza dos
chamados “anos de chumbo”, trazem na memória lembranças que talvez
prefeririam esquecer. Nesse sentido, o desafio da História Oral é mostrar
que a memória não é apenas um instrumento ideológico, mitológico e não
confiável. Deve ser, sobretudo, um instrumento de luta, como meio de acesso
à igualdade social, garantindo o direito à conquista das identidades”.
Em julho de 2010, durante o XVIII Seminário de Iniciação Científica (PIBIC)
realizado no Museu Paraense Emílio Goeldi, Adriana Coimbra apresentou
pesquisa na qual explica como as representações simbólicas estão presentes
no universo das histórias contadas oralmente.
“As pessoas criam diversas representações para explicar e entender o que
ocorreu ali dentro do mundo delas. Por exemplo, tinha um guerrilheiro, o
Osvaldão, sobre o qual foram criadas várias representações. Então, diziam
que ele não era pego por ser encantado, por se transformar em cachorro, ou
que ele virava fumaça e que ele foi pego porque ele cochilou e não deu tempo
dele se encantar”.
Osvaldo Orlando da Costa, mais conhecido como Osvaldão, era militante do
Partido Comunista do Brasil (PCdoB) foi um dos primeiros a chegar à região
do Araguaia (TO), entre 1966/67. Lá, participou de vários combates, fez
parte do grupo atacado pelas Forças Armadas em 25/12/73 e foi morto pela
patrulha militar em meados de 74. Tornou-se bastante popular entre os
camponeses e agricultores do Bico do Papagaio, no sul do Pará, onde o PCdoB
se estabeleceu e, em pouco tempo, o maior conhecedor da área ocupada pelos
guerrilheiros.
do Papagaio, na região Sul e Sudeste do Estado do Pará, no período de 1967 a
1975, acaba de ganhar a sua história social. A memória do acontecimento está
na pesquisa Memórias do Araguaia: relatos de uma guerrilha, produzida por
Adriana Coimbra, graduanda em História da Universidade Federal do Pará
(UFPA) e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação
Científica (PIBIC/CNPq).
Para realizar sua pesquisa, Adriana Coimbra utilizou as gravações em vídeo
feitas pelo Grupo de Trabalho do Tocantins (GTT), responsável pela
construção do acervo da memória social da Guerrilha do Araguaia. O grupo
integra o projeto de identificação dos restos mortais dos guerrilheiros.
Adriana foi orientada sem eu trabalho por Rodrigo Peixoto, pesquisador do
Museu Paraense Emílio Goeldi.
A intenção da bolsista é colocar o resultado do trabalho no site
www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br. Para isso o Museu Goeldi fará
uma convênio com o Arquivo Nacional, órgão vinculado à Casa Civil da
Presidência da República. “Queremos deixar à disposição dos pesquisadores,
que tiverem interesse em pesquisar essa temática da Guerrilha”, ressalta
Adriana Coimbra. A bolsista já ouviu cerca de 80 horas de entrevistas, onde
procura deixar na íntegra todo o material coletado. “A gente edita no
sentido de que a câmera fica muito tempo ligada antes de começar a
entrevista. Ou, às vezes, o entrevistado está falando e, de repente, alguma
coisa o distrai e ele começa a dar atenção para aquela outra coisa... A
gente retira aquilo que não interessa para o arquivo”.
Segundo Adriana, as entrevistas lembram como os guerrilheiros do Araguaia se
instalaram naquela região. “Eles acreditavam existirem ali os elementos
necessários para o desenvolvimento da guerra de guerrilhas, tais como:
terras em processo recente de ocupação, conflitos sociais pela posse da
terra, ausência do Estado, além de ser uma área de difícil acesso por causa
da floresta densa”. Por isso, as florestas da Amazônia eram consideradas o
lugar ideal para refúgio e preparação dos guerrilheiros.
Cotidiano na região do Araguaia
A chegada dos guerrilheiros mexeu profundamente com a rotina do lugar. “No
início chegaram silenciosos. A intenção era se misturar e ganhar a confiança
da população, já que estavam em uma região com muitas dificuldades e vinham
de outra realidade – muitos deles eram universitários ou pessoas já
formadas, como médicos, geógrafos, economistas, enfermeiros – então eles
tinham uma preparação acadêmica e técnica diferente das pessoas dali”, conta
Adriana Coimbra.
Com isso, acabaram adotando uma outra tática: a tática de ajudar as pessoas.
“Eu não sei te dizer se eles adotaram essa tática conscientes ou se eles
foram tocados pelo sentimento de humanidade. O que se sabe é que eles
acabaram se tornando, para aquelas pessoas, a única alternativa”.
A imagem de um grupo perigoso à soberania nacional e inimigos da pátria
ficou bem distante após a bolsista ouvir as primeiras gravações feitas pelo
GTT. Em entrevista concedida ao grupo, dona Neusa relata como se envolveu
com Amaro Lins, um guerrilheiro atuante no ano de 1969. Amaro se afastou do
Partido Comunista do Brasil (PC do B) para ficar com dona Neusa. Tiveram
quatro filhos. Em 1972, Amaro foi preso pelo Exército para prestar
esclarecimentos sobre seu envolvimento com a guerrilha.
Dona Neusa conta também que abordada por Paulo – não se sabe ao certo se o
nome é do registro civil ou codinome político – leu os 27 pontos do PC do B,
o que a teria feito entrar para o Partido, por acreditar ser uma causa
justa.
A entrevistada conta ainda: “O Paulo chegou como médico. Eram aqueles deuses
que desceram do céu para socorrer as pessoas da região. A minha casa era
grande, as pessoas ficavam na minha casa, virou um hospital. Eles não
cobravam pela consulta. Quem podia pagava os remédios, quem não podia não
pagava. Mas camponês é honesto e fazia questão de pagar com serviço”, diz
dona Neusa em entrevista gravada pelo GTT.
Emoção nas entrevistas
Ainda nas gravações, Adriana Coimbra sentiu nas falas dos entrevistados a
emoção, o sentimento de importância dos guerrilheiros para a região e até o
medo.
Dorimar, um dos soldados atuantes na guerrilha ao lado do exército,
atualmente preside uma associação que reivindica indenização para os
soldados envolvidos no conflito. “Na fala de Dorimar encontramos o desejo
dele de esclarecer que não tinha consciência de seus atos, não sabia que
estava cometendo crimes contra o ser humano. Posiciona-se claramente a favor
de sua classe, os soldados, representando-os como o lado mais fraco naquela
situação de luta do exército contra os guerrilheiros: 'Os soldados eram
ameaçados’. Diziam: 'Se você não fizer isso, vai enfrentar uma corte
marcial... Pode ser até executado'.”
“O discurso que ele constrói é no sentido de dizer que ele foi enganado, que
ele não sabia o mal que ele tava fazendo para as pessoas”, destaca a
bolsista. “A gente não se sente só traumatizado, mas se sente vítima...
Porque a gente nem sabia o que estava acontecendo. Eles [os militares do
alto escalão] diziam que eram guerrilheiros financiados por Cuba, pela
China, de outros países, treinados por outros países, para vir tomar o
Brasil. Era essa a informação que nós tínhamos dos comandantes generais.
Então, a gente ia fazer aquilo com orgulho, pensando que tava defendendo o
Brasil de uma invasão estrangeira. A gente ia pro tudo ou nada. Eles diziam:
‘se eles tomarem o país, a tua família vai ser sacrificada’. Aquilo era uma
maneira deles levantarem o brio do soldado, a moral do soldado” disse
Dorimar em entrevista gravada pelo Grupo de Trabalho.
Importância do acervo
Adriana Coimbra, em seu processo de análise do material coletado, ressalta
que diversas são as visões criadas acerca da Guerrilha do Araguaia e de seus
participantes, tanto do lado do Estado quanto da sociedade civil. Além
disso, a guerrilha ainda está muito presente na memória e no cotidiano da
população local, mesmo passados 35 anos da dizimação do projeto guerrilheiro
implantado pelo PC do B. “Os que viveram os horrores daqueles dias de
incerteza e de restrição das liberdades, capitaneados pela dureza dos
chamados “anos de chumbo”, trazem na memória lembranças que talvez
prefeririam esquecer. Nesse sentido, o desafio da História Oral é mostrar
que a memória não é apenas um instrumento ideológico, mitológico e não
confiável. Deve ser, sobretudo, um instrumento de luta, como meio de acesso
à igualdade social, garantindo o direito à conquista das identidades”.
Em julho de 2010, durante o XVIII Seminário de Iniciação Científica (PIBIC)
realizado no Museu Paraense Emílio Goeldi, Adriana Coimbra apresentou
pesquisa na qual explica como as representações simbólicas estão presentes
no universo das histórias contadas oralmente.
“As pessoas criam diversas representações para explicar e entender o que
ocorreu ali dentro do mundo delas. Por exemplo, tinha um guerrilheiro, o
Osvaldão, sobre o qual foram criadas várias representações. Então, diziam
que ele não era pego por ser encantado, por se transformar em cachorro, ou
que ele virava fumaça e que ele foi pego porque ele cochilou e não deu tempo
dele se encantar”.
Osvaldo Orlando da Costa, mais conhecido como Osvaldão, era militante do
Partido Comunista do Brasil (PCdoB) foi um dos primeiros a chegar à região
do Araguaia (TO), entre 1966/67. Lá, participou de vários combates, fez
parte do grupo atacado pelas Forças Armadas em 25/12/73 e foi morto pela
patrulha militar em meados de 74. Tornou-se bastante popular entre os
camponeses e agricultores do Bico do Papagaio, no sul do Pará, onde o PCdoB
se estabeleceu e, em pouco tempo, o maior conhecedor da área ocupada pelos
guerrilheiros.
Por Sílvia Leão Agencia Amazônia
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