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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Comece bem, com a pata-de-vaca certa!



Tem gente que passa o Ano Novo pulando numa perna só para garantir a entrada com o pé direito, tido como sinal de sorte. O pai da aviação, Alberto de Santos Dumont, não subia uma escada sem começar com o pé direito. Chegou a desenhar degraus impossíveis de galgar senão iniciando com o pé direito. Uma escada com tais degraus ainda está em sua casa de Petrópolis (RJ) – hoje um museu – à disposição de quem quiser tirar a prova.

 
Na hora de aproveitar os benefícios da biodiversidade brasileira, também é preciso começar bem, escolhendo as espécies certas. Não por uma questão de sorte ou superstição, mas porque plantas muito parecidas – frequentemente conhecidas pelo mesmo nome comum – podem ter efeitos muito diferentes. Ou não produzir efeito algum!

 
Assim é com as patas-de-vaca, plantas do gênero Bahuinia, assim chamadas devido ao formato das folhas, semelhante ao casco partido dos bovinos. As várias espécies de patas-de-vaca são popularmente utilizadas contra diabetes e por suas propriedades antivirais, antimicrobianas, anti-inflamatórias e antioxidantes.

 
Um grupo de pesquisadores da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), de Santa Catarina, isolou diversos compostos e substâncias presentes nas patas-de-vaca, e, de fato, identificou o flavonóide kaempferitrina como hipoglicemiante, ou seja, com efeito no tratamento de diabetes. Agora, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Santa Catarina (Fapesc), eles avaliam se há ou não interação do composto natural com a glibenclamida (o medicamento mais usado contra diabetes mellitus tipo 2) e se a interação é positiva no controle da doença.

 
Enquanto não saem os resultados, é bom saber que este flavonóide antidiabético não existe nas patas-de-vaca ornamentais, árvores muito comuns no paisagismo urbano, geralmente da espécie Bauhinia variegata, cujas flores são rosadas e folhas, arredondadas (foto). A substância está presente apenas em Bauhinia forficata, "uma árvore de 6 a 9 metros de altura, com folhas de 8 a 10 cm de comprimento, possuindo lóbulos agudos e a presença de espinhos, duas características que a diferenciam das demais espécies. As flores são brancas e a espécie ocorre no Brasil meridional, Rio de Janeiro a Minas Gerais, com uma variedade em São Paulo", esclarece a farmacêutica da Univali, Christiane Meyre da Silva Bittencourt, mestre e doutora em química orgânica.

 
Segundo ela, o acesso à pata-de-vaca certa é difícil e um bom número de chás comercializados com este nome não contém o composto eficaz contra o diabetes. Christiane cita uma avaliação feita por colegas, sob coordenação de I. C. Engel, de 6 marcas comerciais e 3 patas-de-vaca ornamentais. Só duas das amostras comerciais continham material compatível com a planta certa e todas continham mais de 2% de materiais vegetais estranhos. E nenhuma das amostras ornamentais continha kaempferitrina.

 
Quanto às propriedades antivirais, antimicrobianas, anti-inflamatórias e antioxidantes, estas parecem estar presentes em uma terceira espécie de pata-de-vaca – Bahuinia microstachya – mais parecida com um cipó, do tipo escada de jabuti, amplamente distribuída na região sul do Brasil e no Uruguai, Argentina e Paraguai. Estudos preliminares identificaram nas cascas e nas folhas, compostos com tais efeitos. Mas a propriedade mais promissora, na opinião de Christiane, não faz parte do repertório popular: é a analgésica, identificada no extrato bruto das folhas de B. microstachya, associada "aos compostos isolados quercitrina e miricitrina, contribuindo para a sua indicação, ao menos em parte, em processos dolorosos".

 
Como se vê, tomando-se o devido cuidado, diversos medicamentos eficazes podem ser extraídos das plantas do gênero Bahuinia nos próximos anos, incluindo algumas surpresas. A questão é não apostar no escuro, correndo o risco de consumir a pata-de-vaca errada. Melhor começar com o pé direito e confiar na chancela da pesquisa, certa como a escada de Santos Dumont.

Por Liana John

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