O Pará continua a ser o líder nacional em mortes no campo, com 9 de 17 assassinatos registrados entre janeiro e setembro deste ano, conforme o levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgado esta semana.
Apesar disso, o número de mortes caiu 36% em comparação ao mesmo período do ano anterior, quando houve 14 mortes no Estado. O agente da CPT no Pará, padre Paulo Joanil da Silva, alerta que isso não significa que as disputas no meio rural estejam menos tensas, ao contrário: o número de pessoas ameaçadas saltou de 23 para 38 e o de vítimas de pistolagem de 23.510 para 28.945, entre o mesmo período do ano passado e deste ano.
Depois do Pará, o estado que mais registrou mortes no campo, de janeiro a setembro de 2011, foi a Bahia, com três vítimas. Os estados do Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Amazonas e Rondônia registraram um assassinato por conflito agrário, cada.
O Pará também aparece como o segundo colocado no País em conflitos agrários registrados em 2011, com 44 ocorrências envolvendo 7.226 famílias, sendo que no ano anterior houve mais do que o dobro disso, 93, envolvendo 8.041 famílias. Em primeiro lugar está o Maranhão, com 50 conflitos e, em terceiro, Rondônia, com 42 casos. Entre as regiões, o Norte lidera os conflitos no meio rural, com 106 casos, seguido do Nordeste, com 94.
No período da pesquisa de 2011, o Pará teve seis ocupações envolvendo 545 famílias, dois acampamentos com 190 famílias, e foram registradas 37 denúncias de trabalho escravo, envolvendo 380 pessoas. Em 2010, foram sete ocupações envolvendo 1.033 famílias e seis acampamentos com 945 famílias, além de 66 denúncias de trabalho escravo, atingindo 1.445 pessoas.
O padre explica que, nos últimos anos, surgiu uma nova motivação para os assassinatos no campo. Hoje, não se mata apenas por disputa de terra, mas também por questões ambientais, como ocorreu com o casal Maria do Espírito Santo e José Cláudio Ribeiro da Silva. Eles foram mortos em maio deste ano, em Nova Ipixuna. O religioso classifica a lentidão da justiça no julgamento dos assassinos como um dos principais estímulos à onda de violência no campo. "A criminalização dos movimentos sociais, a paralisação da legalização das terras, principalmente no Sul e Sudeste do Pará, só agravam a situação".
Hoje, são mais de 40 ameaçados de morte no Pará, segundo ele, como a viúva de Dezinho, Maria Joel, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará, no sul do Estado, que permanece sob risco apesar de ter proteção do Estado. Mas, de acordo com o padre, ainda existem muitos ameaçados sem proteção, como Maria de Nazaré Souza, a "Paula", dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tomé-Açu, no nordeste do Estado, cuja residência teria sido invadida por pistoleiros.
Assassinatos no meio rural, no Pará, entre jan. e set./2011
Por município, data, vítima, categoria, situação da violência
Juruti- 12/1/2011 - Jurandir Soares Nunes (23 anos), assentado, questão ambiental
Itupiranga - 29/01/2011 - Pedro Oliveira Teixeira, (41 anos), sindicalista, tentativa/ameaça de expulsão
Pacajá - 30/4/2011 - Adão Ribeiro, assentado, expulsão
Pacajá - 30/4/2011 - Nildo Ferreira, assentado, expulsão
Nova Ipixuna - 24/5/2011 - José Cláudio Ribeiro da Silva, liderança, questão ambiental
Nova Ipixuna - 24/5/2011 - Maria do Espírito Santo da Silva, liderança, questão ambiental
Nova Ipixuna - 26/5/2011 - Herenilton Pereira dos Santos (25 anos), assentado, questão ambiental
Pacajá - 9/6/2011 - Obede Loyla Souza (31 anos), sem-terra, questão ambiental
Jacundá - 25/8/2011 - Valdemar Oliveira Barbosa, "Piauí" (54 anos), liderança, pistolagem
Fonte: Comissão Pastoral da Terra
Permanência da Força Nacional é pedida
A prorrogação da proteção feita pela Força Nacional é uma das reivindicações dos mais de 40 trabalhadores e lideranças do campo ameaçados de morte no sul e sudeste do Pará, que se reuniram em Marabá.
Em carta às autoridades, divulgada ontem, o segmento também cobra a implantação de um posto temporário da Força Nacional no projeto de assentamento agroextrativista em Nova Ipixuna, diante da ofensiva de madeireiros, grileiros e produtores de carvão ilegal, que estariam motivando as ameaças aos familiares dos ambientalistas Maria do Espírito Santo e José Cláudio Ribeiro da Silva, além de Laíza Sampaio.
Na carta, os trabalhadores e lideranças afirmam que a principal causa das ameaças é a não efetivação da reforma agrária pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), seguida da dificuldade em coibir e punir a extração ilegal de madeira e a produção ilegal de carvão pelo Instituto Brasileiro Proteção do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pela Polícia Federal.
Os ameaçados também dizem que os crimes no campo são "incentivados" pela morosidade do Poder Judiciário em julgar os processos e pela atuação da Segurança Pública, que, dizem, não costuma investigar os crimes.
Por Jornal Amazônia
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