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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

As nossas deficiências não são iguais são diferentes

Quando analiso minhas deficiências encontro todas as complexidades dos seres humanos

Sou autista quando busco a minha plena existência, encontrando na solidão o meu universo de criação artística e com movimentos repetitivos vou dando forma as minhas imaginações. Sinto vontade de criar meu próprio universo, mas ele não existe. O que existe e a multidão.

Sou louca, quando imagino um mundo totalmente feito de amor, paz e felicidade para todos. E na minha insanidade a grande verdade é que não tenho cura para minha falta de consciência de que a violência, a fome a miséria fazem parte do meu mundo esquizofrênico da sanidade em que vivemos.

Sou cega perante tantas verdades do olhar. Toda luz cega, toda cor necessita de luz e toda noite fico cega, pois a lua me causa uma baixa visão, uma visão tubolar para olhar o que foco no meu universo, uma visão periférica quando não quero ver a verdade da cidade (pessoas dormindo na rua, pedintes, alcoólatras, entre outros seres que chamamos de invisíveis), visão central para os meus interesses, visão com catarata para o vidro embaçado do meu carro depois da chuva da tarde, com glaucoma quando a poluição da cidade aumenta a minha pressão ocular e, finalmente, cega adquirida quando quero beijar com amor... Fecho os olhos para sentir com a alma plenamente todas as sensações.

Sou limitada fisicamente quando os meus membros superiores e inferiores se paralisam em momentos de pânico e pavor do meu irmão que, com uma arma, torna-se desumano e meus bens materiais tenta furtar. Ou ainda quando temporariamente por alguma situação atípica – acidente, gravidez, obesidade, entre outros – não posso verdadeiramente ser independente na minha mobilidade e destreza.

Sou surda quando não quero ouvir a verdade, ou mesmo quando todos os sons me despertam para as vibrações sonoras dos gestos e movimentos na tentativa de me comunicar sem palavras orais. Faço mímicas e deslizo infinitas possibilidades de comunicações alternativas, ora ampliada, ora com Língua Brasileira de Sinais, ou com letras cursivas que expressam os meus pensamentos para ensinar o meu amigo que não tem o sentido pleno da audição sensorial.

Sou também múltipla nas deficiências no cotidiano, sobrevivendo e enfrentando todas as barreiras de acessibilidades, de preconceito, principalmente das falsas caridades de pessoas que ao afirmarem sua condição de perfeitos – que não são – apontam, as minhas deficiências como forma de exclusão. A justificativa é que sou múltipla nas minhas deficiências e eles na eficiência de perfeição são limitados pela concepção de valores.

A paralisia cerebral é a alternativa de conter a minha mente em poder entender friamente o que as altas habilidades de um cérebro podem sintetizar para uma única palavra deficiente. É o dicionário Aurélio que é capaz de sintetizar como significado a palavra e não como significante o rotulo de deficiência das pessoas.

Por fim, tenho tantas deficiências e ainda julgam-me como perfeita. Não sou! Há várias formas de tentar compreender as deficiências na sociedade, elas são tão complexas e diversas que tentamos dar formas por meio de modelos caritativos, modelos médicos, modelos sociais e modelos baseados em direitos. O que necessitamos verdadeiramente é entender universalmente uma linguagem não discriminatória. Este pensamento não pretende julgar o certo ou errado, desta ou daquela atitude, mas estimular a reflexão sobre o tema sentindo na pele.

Acreditamos que conhecendo os nossos limites, nossas falhas e nossas potencialidades a deficiência é ponto final.

FELIZ DIA INTERNACIONAL DA PESSOA COM DEFICIÊNCIAS

Darcilene Batista Costa

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