As sociedades ricas vão começar a consumir menos? A riqueza pode ser verde? A parcimônia pode se tornar um novo tipo de comportamento? Isto tudo é muito questionável. Mas pode ser possível, diz o e360, da Universidade Yale.
Pegue a Grã-Bretanha, por exemplo. Um novo estudo mostra que o país que inventou a revolução industrial chegou a um “pico de consumo de coisas” entre 2001 e 2003. Na última década, o país vem consumindo menos água, materiais de construção, papel, alimentos (especialmente carne), carros, têxteis, fertilizantes e muito mais. O número de viagens diminuiu, e o mesmo aconteceu com a produção de lixo, também.
Esta análise não é produto de uma organização de direita do chamado livre mercado. Seu autor é Chris Godall, ativista ambiental em tempo integral e candidato ao parlamento pelo Partido Verde, e também um devorador de estatísticas que trabalhou para a McKinsey & Company. Seus livros incluem Como Viver Uma Vida de Baixo Carbono.As estatísticas são verdadeiras quando se leva em conta a pegada de carbono da fabricação de bens importados. O declínio do uso de recursos na Grã-Bretanha acelerou desde a crise econômica de 2008, mas a tendência começou bem antes do colapso bancário. Houve um declínio de uso de materiais de 4% entre 2000 e 2007. Isto não pode ser atribuído inteiramente à recessão, e o movimento deverá sobreviver à recuperação econômica.
Os britânicos ainda consomem 30 toneladas de coisas per capita ao ano. Mas o total agora voltou ao nível de 1989. Godall diz que o crescimento econômico local na última geração não resultou em qualquer aumento da poluição. “A crença do movimento ambiental de que o crescimento piora todos os problemas ecológicos tem de ser reexaminada”, diz ele.
O consumo de papel e papelão caiu 18% na última década. No mesmo período a aplicação de fertilizantes teve uma diminuição de 30%. A fabricação de cimento, que consome montanhas de energia, tem permanecido no mesmo patamar em duas décadas. O consumo de calorias alimentares pelos britânicos vem caindo desde os anos 1970, embora a obesidade esteja crescendo, porque as pessoas se exercitam menos.
Goodall diz ter entrevisto “mudanças muito robustas em tendências de longo prazo”. E não apenas na Grã-Bretanha. Tendências semelhantes estão comerçando a emergir com força na Europa, onde o consumo de energia dos lares esteva, em 2009, 9% abaixo do nível de 2000. Na França, Suécia e Holanda, a queda foi de 15%.
As compras de automóveis tem declinado no mundo rico em duas décadas, porque os carros hoje duram mais. Mas, o que é mais surpreendente, o uso de carros tem caído desde 2004 na Alemanha, França, Austrália, Suécia e Japão, além da Grã-Bretanha.
Mesmo nos Estados Unidos, capital mundial do consumo, há sinais de que uma tendência semelhante está em curso. A milhagem de caminhões americana está estável há uma década, e o mesmo acontece com carros nas ruas. Como resultado, o consumo de gasolina deve ser o mais baixo em dez anos.
Isto, claro, é apenas parte da história. Diferentemente dos europeus, os americanos comem mais que seus pais e praticam menos exercícios. O resultado é visível em qualquer lugar. A única contratendência é o menor consumo de carne.
O que está acontecendo? Godall diz que o ritmo da “desmaterialização” está acelerando. A tendência irrefreável é o resultado lógico do que os economistas chamam de a curva de Kuznets, do economista Simon Kusnetez. Isto sugere que, quando se industrializam, os países passam da fase inicial do “barato e sujo”, quando desperdiçam recursos e geram poluição maciça, mas depois ultrapassam um ponto de virada além do qual começam a investir no uso mais eficiente de recursos.
Estes países avançados não usam inicialmente menos. Mas há um declínio gradual na quantidade de materiais e energia necessários para a produção de cada dólar do PIB. Isto é o que se chama desmaterialização.
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