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terça-feira, 23 de agosto de 2011

ICMBio lança plano para salvar da extinção sauim-de-coleira, primata que só vive em Manaus

Perda de áreas verdes, expansão urbana e agressões do ser humano estão causando a sobrevivência do primata endêmico da capital amazonense.

O drástico declínio da população do primata sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) nos últimos 20 anos e a perspectiva da espécie desaparecer dentro da cidade de Manaus por completo em menos de 50 anos deu o sinal de alerta e provocou a elaboração de um plano nacional para salvar o primata da extinção.

Também conhecido como sauim-de-Manaus, o sauim-de-coleira é um primata de pequeno porte (chega até 32 cm, além da cauda de até 42cm e pesam cerca de 550 g quando adultos) que vive exclusivamente na região de Manaus e em algumas áreas de vegetação da zona rural. Há também uma população de quantidade ainda pouco conhecida nos municípios de Itacoatiara e Rio Preto da Eva, na Região Metropolitana da capital.

Algumas das ações propõem a criação de unidades de conservação para receber os primatas que se encontram na zona urbana de Manaus e promover a sua conectividade; manter a conservação de fragmentos de vegetação onde a população está conseguindo sobreviver e articular junto aos grandes proprietários de terras a manutenção em longo prazo dos remanescentes florestais contidos em suas propriedades.

Restrição
A demanda é do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e envolve a atuação de várias instituições, como Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

O Plano de Ação Nacional para a Conservação do Sauim-de-Coleira começou a ser elaborado em maio deste ano e agora entra na fase da implementação. Esta fase, contudo, ainda depende de mais parcerias, especialmente no que se refere a fontes de financiamento.

Leandro Jerusalinsky, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas brasileiros do ICMBio, disse ao portal critica.com que o plano adotado para o sauim-de-coleira integra uma política de
conservação da biodiversidade lançada em 2009 destinada a espécies ameaçadas
de extinção.

Segundo Jerusalinsky , em 2011, o ICMBio lançou um grande pacto entre as instituições para viabilizar o pano entre o sauim-de-coleira.

“Esta espécie tem uma situação peculiar porque está distribuída em uma região extremamente restrita e sofre um impacto urbano muito grande. Fizemos um plano para ser realizado em cinco anos que garanta pelo menos oito populações viáveis para a espécie, ou seja, populações com um mínimo de 500 indivíduos ocupando uma extensão de ao menos 10.000 hectares cada", disse Jerusalinsky.

Desmatamento
O receio tanto dos pesquisadores quanto dos gestores públicos é com o crescimento da expansão urbana de Manaus e a crescente perda de floresta na zona urbana da capital amazonense.

Outras ameaças são agressões sofridas por moradores do entorno dos fragmentos de floresta e os predadores, especialmente animais domésticos.

O Plano de Ação Nacional já foi finalizado mas ainda está para ser publicado no Diário Oficial da União. No entanto, segundo Jerusalinsky, algumas ações já estão em curso, como a realização de diagnósticos e levantamentos de indivíduos e complicação de dados.

O analista ambiental Diogo Lagroteria Faria destaca que o plano envolve sete metas e dezenas de ações cujo objetivo é garantir a sobrevivência da espécie.

Uma dessas metas é criar e ampliar unidades de conservação onde o sauim-de-coleira vive, e estudar melhor a espécie. A outra meta é aumentar a conectividade entre os fragmentos, como o que ocorre entre a Reserva Florestal Adolpho Ducke e a área do CIGS, para se garantir uma maior variabilidade genética entre os sauins-de-coleira”, explicou Faria.

A ação não deve se limitar às instituições de pesquisa, ongs e ICMBio, segundo Diogo.
 
Apresentamos algumas propostas à prefeitura de Manaus para que as ações para conservação do Sauim façam parte da elaboração do Plano Diretor da cidade. Cabe a sociedade cobrar para que essas propostas sejam concretizadas, informou.

Ele salientou ainda que sauim-de-coleira é uma das espécies de primatas mais ameaçada de extinção do mundo e tem papel importante na ecologia e no equilíbrio do meio ambiente.

"Os sauins-de-coleira são grandes dispersores de espécies vegetais, além de serem parte importante da cadeia alimentar. Muitos turistas vem até manaus para conhecer essa e outras espécies de nossa tão rica biodiversidade, destacou.

Crítica
O alerta para o risco de extinção da população de sauim-de-coleira em Manaus em menos de 50 anos é do biólogo Marcelo Gordo, que há dez anos coordena um projeto dedicado à espécie pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Gordo também faz parte do Plano de Ação Nacional do ICMBio.

Segundo Gordo, a implementação do plano não impedirá que a situação continue crítica para a espécie.

Mesmo sem ninguém matar e desmatar mais nada a espécie correrá risco. Pode ser vítima de doenças, ser atropelado. O plano de ação vai tentar amenizar a situação e prolongar a vida dentro da cidade, observou.

Conforme o biólogo, a espécie distribui-se em uma área muito limitada. Ela concentra-se na zona urbana de Manaus e em parte dos municípios de Manaus, Rio Preto da Eva e Itacoatiara, incluindo a área florestal onde funcionam os treinamentosos do Exército, à margem do rio Solimões, e na região do Parque Estadual do Rio Negro, à margem do rio Cuieiras, afluente do rio Negro.

Na zona urbana de Manaus, a população maior está na Reserva Florestal Adolpho Ducke e na floresta da Ufam, onde estima-se que há aproximadamente 150 indivíduos. Na floresta da sede do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) há apenas cinco.

As áreas onde mais houve perda dos indivíduos são bairros como Parque 10, Parque das Laranjeiras e quase toda a totalidade dos bairros da zona Norte, onde o desmatamento total para a construção de unidades habitacionais acabou com o habitat natural da espécie.

Uma área verde “condenada” é a localizada entre o Aeroporto Eduardo Gomes e a Ponta Negra. “Tudo aquilo é condomínio. Nos próximos dez anos, vão sobrar apenas 10% da vegetação. Acaba floresta e macaco vai junto, salientou Gordo.

Para ele, a ação mais urgente que precisa ser implementada é a criação de unidades de conservação com tamanho superior à Reserva Ducke. Mas estas, segundo ele, só podem ser criadas em Itacoatiara e Rio Preto da Eva.

Competição
O sauim-de-coleira faz parte da família Callitrichidae, que compreende micos, sagüis e sauins). Segundo informações do ICMBio, além de ser ameaçado pelo homem, o sauim-de-coleira também sofre ameaças do
sauim-de-mãos-douradas (Saguinus midas), um outro calitriquídeo presente nas áreas de entorno da cidade de Manaus.
Nesta possível relação de exclusão competitiva, o sauim-de-coleira estaria perdendo áreas de florestas para o sauim-de-mãos-douradas e sendo empurrado” gradualmente em direção às florestas secundárias da área urbana de Manaus.

Por causa da competição entre as duas espécies, o sauim-de-coleira está cada vez mais confinado à cidade, aumentando assim a responsabilidade dos habitantes da cidade quanto à sobrevivência da espécie.

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