Em seu artigo "Mais que petróleo, o País precisa de tecnologia", os professores Glauco Arbix e João De Negri comentam os dados recentes da Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec-IBGE). Segundo os professores, tais dados revelam que também as empresas de médio e grande porte têm dificuldades de inovar. De um total de 71,9% de empresas inovadoras com mais de 500 funcionários, apenas 4,1% são apoiadas por programas públicos de subvenção econômica ou de apoio à contratação de pesquisadores; e 4,2% conseguem apoio direto de algum instrumento público para seus projetos. Entre 2006 e 2008, não chegaram a cem as empresas que geraram inovações e foram apoiadas diretamente por algum programa público. Isso indica que o coração da economia brasileira se apoia pouco nos incentivos atuais. Pode ser que problemas existam nas duas pontas. Mas o setor público tem obrigação de avaliar - e melhorar - rapidamente o sistema de estímulo existente? -
O baixo percentual de empresas que se utilizam de programas públicos de apoio à inovação pode ter origem, entre outros fatores, na baixa relação entre o número de apoios concedidos e o número de apoios requeridos. Não é incomum ouvir-se manifestação de autoridades no sentido de que "há dinheiro, faltam bons projetos". Mas o que é, exatamente, um bom projeto? A esse propósito, relato aqui duas experiências ocorridas em uma incubadora de empresas. A primeira refere-se a uma empreendedora que havia incubado um projeto da área de biologia animal, para o qual ela solicitou apoio de uma instituição pública.
Enquanto aguardava a resposta à solicitação, a empreendedora participou de uma feira no interior de São Paulo e teve o primeiro prêmio em sua área, na categoria Inovação, ganhando um daqueles cheques gigantes, que ela exibia em seu escritório. Pouco tempo depois seu projeto foi denegado pela instituição apoiadora e a empreendedora retirou-se da incubadora. Um dos motivos alegados pela instituição foi a "falta de inovação no projeto", mencionada pela assessoria ad hoc do órgão.
Há certamente um equívoco aqui. Ou então conceitos distintos do que é uma inovação estão sendo utilizados. A quem cabe determinar o que é uma inovação? Ao mercado, representado pela feira de negócios, ou à assessoria ad hoc de uma organização de apoio à inovação? A segunda experiência refere-se a um projeto cujo objetivo era facilitar a feitura da separação e da coleta seletivas de resíduos sólidos domésticos. O empreendedor também solicitou apoio de uma instituição de apoio à inovação. A assessoria ad hoc do órgão, ao responder à pergunta "A inovação decorrente do projeto terá importante impacto comercial ou social?", respondeu. Social, certamente, não.
Ampliar o número de lixeiras para residências cada vez menores não estimula a segregação na fonte, que, na realidade, necessita de dois tipos: seco/limpo, úmido/orgânico". Nota-se que a assessoria ad hoc analisou o projeto sob um paradigma próprio. Ela considerou os dispositivos como lixeiras. O dispositivo é, sob a ótica do projeto, no entanto, um contêiner de materiais. Um dos objetivos desse projeto é fazer com que o cidadão veja não lixo, mas materiais, naquilo que resulta do processo de consumo em seu lar. Sob a ótica desse projeto, o lixo não existe de per si. É o cidadão que decide se o que produz em sua residência é lixo ou não.
A assessoria da instituição considerou ainda que a separação seletiva deve resumir-se a "seco e molhado". Esse projeto pretende transformar cada lar em uma "unidade separadora de resíduos", como menciona o arquiteto Jonas Rabinovitch, consultor da ONU, na matéria "Por que a coleta seletiva não avança em São Paulo" Assim, uma quantidade maior de materiais pré-selecionados seria conduzida aos catadores, permitindo-lhes ganhos em eficiência e renda.
O projeto foi denegado e não obteve os recursos da instituição de apoio. Há que se investigar a relação entre o número de solicitações de apoio requeridas pelas empresas e pelos empreendedores e o número de apoios concedidos pelas instituições públicas, no que se refere aos programas de apoio à inovação. É a classe empreendedorial brasileira incapaz de propor bons projetos? Ou são, talvez, os analistas de projetos nas instituições de apoio à inovação prisioneiros de seus paradigmas, contra o que nenhuma inovação terá sucesso, porque, por definição, a inovação busca romper paradigmas? Pode ser que faltem bons projetos, como dizem as instituições de apoio à inovação. Mas certamente faltam também bons analistas de projetos, abertos ao rompimento de paradigmas.
DCI
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