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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Microexército para macrobatalhas

Alexandre de Sene Pinto tem seu lado Gulliver. Ele nunca visitou o imaginário reino de Lilliput exceto, talvez, no cinema, ou nas páginas das muitas versões derivadas da novela escrita em 1726, por Jonathan Swift. Mas vive de treinar comandantes de microexércitos. As batalhas reais ocorrem nos canaviais brasileiros. E os minúsculos soldados de Alexandre andam cantando
vitória!

Como os fungos aqui destacados na semana passada, os microexércitos fazem
parte da guerra contra pragas agrícolas, substituindo venenos químicos por controle biológico. Porém seguem estratégia diversa: os aliados do agricultor, neste caso, são vespinhas que põem seus ovos nos ovos de lagartas ou mesmo no corpo das larvas de insetos-praga.

Tecnicamente, as vespinhas são chamadas de parasitóides, assim como algumas
mosquinhas com a mesma função. O agrônomo e doutor em Entomologia, Alexandre de Sene, explica o termo: parasitas não têm vida livre e não matam o hospedeiro, pois dependem dele para viver, enquanto os parasitóides usam outros invertebrados em uma fase de sua vida, mas não dependem exclusivamente de um hospedeiro. Via de regra, os parasitóides recrutados para o controle biológico já são inimigos naturais dos insetos-praga.

É o caso de uma vespinha com menos de um milímetro, cientificamente chamada
Trichogramma galloi, capaz de causar grandes baixas entre lagartas. Identificada em 1982, na região de Sidrolândia, Mato Grosso do Sul, essa espécie de vespinha hoje é multiplicada aos milhões, em laboratórios privados e em usinas de açúcar e álcool. Depois é liberada em campo  cerca
de 500 mil hectares de canaviais onde enfrenta as batalhas contra a broca-da-cana-de-açúcar (Diatraea saccharalis).

A vespinha brasileira só parasita ovos, mas é considerada agressiva e muito
eficiente, assim como a espécie trazida da Índia há mais de 40 anos e hoje empregada em aproximadamente 3 milhões de hectares de canaviais: Cotesia flavipes.

As pesquisas com Trichogramma galloi foram desenvolvidos principalmente por
especialistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP). O trabalho de Alexandre de Sene como consultor é focado na multiplicação da vespinha para formar microexércitos. E com controle de qualidade!

No campo, em condições naturais, os parasitóides não controlam a praga. Só
quando as populações do inseto crescem é que começam a se multiplicar seus inimigos, explica o agrônomo e entomólogo. Por isso é necessário estimular a multiplicação em laboratório para distribuir uma overdose de parasitóides na lavoura, antes de a praga provocar danos significativo.

A produção de microexércitos não pode ser uniforme: como o controle
biológico da broca-da-cana é empregado em todo o Brasil, existem linhagens de vespinhas mais apropriadas para o combate em clima seco, outras mais adequadas para aguentar o frio, e assim por diante. Para sua multiplicação, é preciso criar também as lagartas sobre cujos ovos elas farão a postura.
Assim, antes de servir de ninho, as larvas recebem tratamento vip, com ração balanceada: um sopão à base de germe de trigo, levedura de cerveja, gelatina e, claro, muito açúcar.

E não dá para descuidar do planejamento: o produtor que pretende usar os
microexércitos em seus canaviais precisa encomendar com alguns meses de antecedência e ainda escalonar a soltura. As vespinhas da espécie Cotesia flavipes, prontas para o combate, costumam ser distribuídas em campo dentro de copinhos plásticos, posteriormente recolhidos. No caso de Trichogramma galloi já é possível usar cápsulas de papelão que se desfazem com a chuva e
não precisam ser recolhidas. E há estudos em andamento para viabilizar o lançamento dos microexércitos de avião, cobrindo mais hectares em menos tempo.

De qualquer modo, a vitória mais significativa desses minúsculos soldados é
contra a contaminação do solo e da água por pesticidas agrícolas! Longa vida, pois, aos lilliputianos!! 

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