Mais do que referência no estudo e na preservação da biodiversidade, a coleção Árvores Brasileiras, de Harri Lorenzi, foi a primeira a aproximar o leigo do conhecimento da flora arbórea do Brasil. Em vez de uma linguagem academicista e hermética, própria dos trabalhos científicos, o autor produziu livros fáceis de ler e de consultar. Perfeitos para entendermos a biodiversidade e ajudar a preservá-la
Quando trabalhava na Copersucar, a Cooperativa de Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo, nos anos 80, o engenheiro agrônomo Harri Lorenzi era responsável por recompor , com mudas nativas, as matas ciliares geralmente destruídas pelas queimadas da cana nas bordas dos canaviais. Recorria a viveiros para obter as mudas, mas a busca era difícil: só encontrava espécies exóticas. Passou, então, a coletar sementes na natureza para produzir e estudar o comportamento das mudas nos terrenos das usinas. Não ficou apenas nisso. Assim, Lorenzi começou a identificar cientificamente e a fotografar cada pé de árvore, além da flor e do fruto que ela produzia. Percebendo a ausência de publicações compreensíveis sobre o assunto, decidiu organizar seu material em forma de livro. Após dez anos de pesquisa, surgiu o primeiro volume da coleção Árvores Brasileiras, um divisor de águas da literatura botânica nacional. Hoje, com três volumes – o último lançado no fim de 2009 – de quase 400 páginas cada, reúne 1056 espécies. "Fiz porque era uma paixão. Hoje, tenho prazer ao ver que a obra contribuiu para o conhecimento e a preservação das árvores brasileiras", afirma o catarinense de 61 anos, dono do Instituto Plantarum, que mantém, entre outras coisas, um jardim botânico em Nova Odessa (SP). "Até então, os livros da área traziam apenas desenhos em nanquim, com os aspectos morfológicos da planta, o que é interessante para um botânico, mas, para o leigo, muito difícil de entender", completa o professor e pesquisador do Departamento de Botânica da Universidade de São Paulo (IBUSP), Paulo Takeo Sano.
Mais do que referência no estudo e na preservação da biodiversidade, a coleção foi a primeira a aproximar o leigo do conhecimento da flora arbórea do nosso país. Em vez de uma linguagem academicista e hermética, própria dos trabalhos científicos, Lorenzi produziu livros fáceis de ler e de consultar. Assim, o leitor tem à sua disposição informações e imagens que auxiliam na identificação da espécie, sempre com seis fotografias coloridas: planta adulta, flor, fruto, semente, madeira natural e tratada. Acompanhando as imagens estão textos objetivos sobre o habitat da árvore, sua utilidade, quando floresce, quando os frutos amadurecem, além de como colher as sementes e fazer as mudas. Abaixo da nomenclatura científica, ficam os nomes populares pelos quais a planta é conhecida. E também dá para saber como ela é chamada conforme a região do país. Os três livros contemplam muitas espécies da mesma família, o que permite que o leitor compare rapidamente as diferenças entre o abacateiro-roxo e o abacateiro-do-mato, por exemplo.
O conteúdo de todas as publicações é extraído dos 60 mil quilômetros que o autor percorre por ano, da Amazônia ao Pantanal, dos Pampas ao Nordeste – muitas vezes voltando aos mesmos lugares várias vezes para monitorar uma espécie.
Outro ponto que engrandece a obra é o cuidado na identificação das árvores. Segundo Lorenzi, algumas pesquisas tomaram até 15 anos valendo-se de consultas a herbários na Europa. "A maioria de nossas plantas foi descrita por europeus nos séculos 18 e 19, nas expedições naturalistas", conta o agrônomo, formado pela Universidade Federal do Paraná e com pós-graduação pela Universidade do Tennessee, nos Estados Unidos. "A primeira geração da escola botânica brasileira surge apenas na década de 70. Até então uma das poucas referências era o estudo do pesquisador alemão Carl
Friedrich Philipp von Martius e sua obra-prima Flora Brasiliensis", relembra Takeo.
Hoje, Lorenzi mantém uma equipe - composta por um assistente e dois botânicos - para as expedições pelo Brasil. Juntos, percorrem até oito mil quilômetros a cada viagem de pesquisa, cruzando o país. Ao longo dos anos, além do árduo trabalho de pesquisa, a equipe se orgulha de suas descobertas. Uma das mais importantes foi o encontro de um exemplar da raríssima pau-santo, na Serra da Bodoquena, no Pantanal, após quinze anos de buscas. A árvore surge frondosa e solitária em uma fotografia presente na última página do segundo volume.
O agrônomo acredita que o país tenha centenas de espécies nativas a desvendar. Grande parte delas, pelo risco de extinção, certamente não será vista em seus livros. "O Cerrado é a região mais ameaçada pelas queimadas e cultivos agrícola e pecuário e, nas cidades, 80% das árvores ainda são exóticas", ressalta. Mas as pesquisas não param. Enquanto o leitor lê esta resenha, provavelmente Lorenzi e sua equipe estão em busca de mais uma espécie desconhecida, juntando a paisagem ancestral que se espalha pelo país em pedaços cada vez mais esparsos.
Árvores Brasileiras - Manual de Identificação e Cultivo de Plantas Arbóreas Nativas do Brasil pode ser adquirido por R$ 110, mais frete de entrega, pelo site do Instituto Plantarum, ou nas grandes livrarias do país por cerca de R$ 140.
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